Nossa Visão sobre a Plataforma – Laboratório de Estudos Libertários

NOSSA VISÃO SOBRE A PLATAFORMA

Laboratório de Estudos Libertários

Entendemos o texto “A Plataforma da Organização” como uma valiosa contribuição para o anarquismo militante e combativo. Mas, ao contrário do que possa parecer, o maior acerto deste documento foi justamente expor as bases programáticas da ação de uma ideologia revolucionária. Se fosse escrito por pessoas sem vínculo com a luta popular, já seria uma grande obra. Sendo produzido como uma reflexão política pelos companheiros ucranianos no exílio, o texto ganha legitimidade na característica mais marcante dos anarquistas: a gente faz o que fala.

A Revolução Russa começou em um processo de insurreição em 1905, justo o ano em que Nestor Machnó se inicia na luta. Mas, é sempre bom afirmar que a história é feita por milhões de pessoas, multidões em marcha, e não por individualidades. Não faz parte da ideologia e da tradição anarquista enaltecer ou criar mitos em torno de uma pessoa. Isto porque, além de injusta, esta não é nossa visão de mundo. Voltando a Plataforma, ao escreverem o documento em 1926, os guerrilheiros ucranianos expressaram publicamente uma proposta de organização que vinha sendo forjada há mais de 70 anos.

Podemos afirmar que o anarquismo contemporâneo, surge como proposta política de libertação dos trabalhadores e oprimidos nas jornadas de 1848. Deste marco, até o ano de 1917 quando se inicia a Revolução Russa, o anarquismo forjou na raça sua própria teoria política e organizativa. Ë fundamental compreender os dois princípios básicos da organização política específica dos anarquistas, seja em qualquer etapa de um processo histórico.

A motivação dos anarquistas se organizarem é a de participar e disputar a hegemonia dos movimentos populares de um determinado território ou população. Ou seja, estes militantes se organizam com a função de impulsionar um processo revolucionário em todos os níveis. Para isto, dois mecanismos são necessários. O Federalismo (ou seja, a forma federalista de organizar o partido dos anarquistas) e sempre algum nível conspirativo.

Nossa ideologia aplica a Autogestão para os níveis sócio-econômicos de uma sociedade, a autogestão plena de um sindicato ou associação de moradores não pode ser a de uma federação, caso esta se proponha a tentar ajudar a derrubar um regime, destruir o sistema, sua elite dominante e transformar a sociedade. O anarquismo entende a sociedade como uma luta permanente contra a opressão, o Estado como o braço político-jurídico-militar do inimigo e a função da ideologia é aplicar uma série de medidas práticas para aumentar as conquistas da classe e povo. Portanto, o anarquismo não confia no sistema que o inimigo se apodera e domina. A ideologia tem de se organizar em forma política para contribuir nesta luta. O anarquismo de combate não pode conviver pacificamente com o capitalismo, não é uma forma de comportamento, é um compromisso de vida com o socialismo e a liberdade.

A grande contribuição da Plataforma é justamente sistematizar minimamente estas idéias, dando uma visão precisa do que é uma sociedade desigual, as relações de força e a necessidade do Poder Popular derrotar em todos os níveis ao Poder Opressor e suas formas de domínio sobre a sociedade. O texto que Machnó e os demais companheiros fizeram nada mais é do que fruto de um processo que se inicia com as insurreições operárias e populares de 1848, as carbonárias anarquistas, a atuação da Aliança e da Fraternidade coordenadas por Bakunin e hegemônicas na Ala Federalista da 1a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Na atualidade, compreendemos que o “plataformismo” nada mais é do que um outro nome para a proposta política-específica dos anarquistas. A mesma das carbonárias clandestinas e semi-clandestinas de Bakunin. A mesma proposta de Partido Anarquista defendida por Malatesta até 1922. A Federação específica que era a Federação Anarquista Ibérica (FAI) em certo volume, mas que infelizmente não chegou a desenvolver um programa revolucionário. Faz parte da mesma tradição do Partido Liberal Mexicano (PLM, era o nome original, na verdade era Libertário) dos companheiros Ricardo Flores Magón, Praxedes Guerrero e milhares de camponeses zapatistas. Nesta mesma linha política, e avançando muito além no plano teórico e operacional, a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) segue há mais de 45 anos.

O que afirmamos é a importância histórica e de identidade combativa da Plataforma. A contundência e a força de uma organização político-militar como o Exército Insurrecional dos Camponeses da Ucrânia (machnovista) é a tradição anarquista mais precisa em pleno funcionamento. Não descaracterizamos visões filosóficas, artísticas e comportamentais de influência anarquista. Mas, vemos a Plataforma como uma expressão pública do que é o anarquismo político.

No momento que vivemos, temos de criar as bases de um processo que construa organizações específicas anarquistas e que cada uma destas organizações gere as bases de suas própria plataformas. Isto é, um programa, uma forma de funcionamento de partido anarquista (federalista e funcional), um bom conhecimento de como funciona o capitalismo e “as matrizes e tradições sociais do povo onde estas organizações se inserem”. Isto é uma Plataforma!

São processos longos, algumas vezes tortuosos, mas imprescindíveis e necessários. No caso brasileiro, sabemos da complexidade deste país e também que os primeiros passos são organizações a nível estadual. A existência de uma organização específica brasileira (a ser construída) é condição prévia para uma possibilidade de revolução social nesta parte do mundo. Isto significa, que se queremos de fato influenciar e disputar o processo de libertação do povo brasileiro, temos de estar organizados para isto. Se queremos ter uma chance de superar 500 anos de colonialismo e opressão da América Latina, é necessário uma revolução brasileira.

Um bom exemplo de necessidade social e vontade política é a Plataforma e seu grupo criador, o Dielo Trouda. Vemos que a maior contribuição deste documento é tornar público o anarquismo como ele é e funciona. Nossa ideologia em ação é isto, uma ferramenta político-organizativa para os pobres, trabalhadores, oprimidos, excluídos e explorados do mundo (e no nosso caso, do Brasil e da América Latina) se libertarem do capitalismo e do imperialismo. A luta em todos os níveis implica a necessidade de uma teoria (hipótese a ser testada na realidade) e uma prática política (incidência sobre a realidade da organização anarquista, através da inserção social e a execução de seu programa revolucionário) através de uma Organização Específica dos Anarquistas comprometidos com o Socialismo e a Liberdade.

Ser mais um exemplo (teórico e prático) do anarquismo em ação é a importância que documentos como a “Plataforma da Organização” tem e sempre terão.

Saudações Libertárias,

Laboratório de Estudos Libertários

 

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