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Felipe Corrêa. “A Teoria da Organização Política (Partido) Anarquista em Bakunin”

O presente trabalho tem por objetivo apresentar e discutir a concepção teórica de organização política (partido) anarquista desenvolvida por Mikhail Bakunin, durante seu período anarquista (1868-1876), em escritos e cartas. Trata-se de um tema marginalizado, mesmo dentre os autores que estudaram mais profundamente a vida e a obra de Bakunin. A história da organização política fundada em 1868 por Bakunin e outros anarquistas, que num outro momento propus chamar de “Aliança”, é pouco conhecida. Isso se explica pelo silêncio de seus membros, pela falta de documentos a esse respeito, e por uma “versão oficial” da história construída posteriormente pelos próprios anarquistas. Ainda assim, sabe-se hoje que Bakunin e outros fizeram parte dessa organização, e que ela teve um braço público, mais conhecido, e um braço secreto, menos conhecido pelos pesquisadores. Também há hoje um consenso entre os pesquisadores de Bakunin que existem escritos e cartas por ele redigidos que abordam esse tema, incluindo programas e regulamentos da própria Aliança. Apesar de não se saber até que ponto aquilo que está nesses documentos foi ou não aplicado na prática, não há qualquer dúvida de que Bakunin discutiu esse tema e que, portanto, possui uma concepção (ou mesmo uma teoria) da organização política ou partido anarquista – e que esse tema é parte integrante de sua teoria política mais ampla, a qual discuti mais pormenorizadamente em meu livro Liberdade ou Morte: teoria e prática de Mikhail Bakunin. Bakunin possui uma teoria organizativa que pode ser chamada de dualismo organizacional: a noção de que a militância anarquista deve se organizar concomitantemente em dois âmbitos distintos e complementares. Um deles, da organização de massas, representada à época pela Internacional (AIT); outro, da organização de quadros, especificamente anarquista, representada pela Aliança. Essa organização de quadros ou partido constitui-se como nível organizativo complementar ao nível de massas. Ela não pretende se impor sobre as massas e nem protagonizar o processo revolucionário. Seu duplo objetivo envolve, por um lado, estimular o fortalecimento e a radicalização da organização de massas; por outro, garantir a preponderância das posições anarquistas nas disputas internas dessa organização. Com isso, pretende motivar o avanço das massas para que, por si mesmas, protagonizem uma revolução social e construam uma sociedade socialista e libertária. Para Bakunin, esse partido anarquista é internacionalista, devido às suas concepções de processo revolucionário e de organização de massas. É organização de tipo partidário, que, apesar de não participar de eleições e de não buscar a conquista do Estado, agrega membros em função de princípios político-doutrinários. Trata-se de uma organização secreta que, a depender do contexto, pode se tornar concomitantemente secreta e pública. É uma organização de minoria, um “partido de quadros”, que conta com princípios, programa estratégico e critérios de conduta comuns, obrigatoriamente compartilhados por seus membros, além de ampla democracia interna, baseada no federalismo e na autogestão.

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