Daniel Guérin. “A Reabilitação do Anarquismo”

A REABILITAÇÃO DO ANARQUISMO

Daniel Guérin

O anarquismo foi por muito tempo vítima de um descrédito desmerecido, de uma injustiça que se manifestou de três maneiras.

Primeiro, seus caluniadores insistem que o anarquismo está morto, que ele não teria resistido aos grandes testes revolucionários do nosso tempo: a Revolução Russa e a Revolução Espanhola. Que ele não teria mais lugar no mundo moderno, caracterizado que é pela centralização, unidades políticas e econômicas de grande escala e o conceito totalitário. Tudo o que resta aos anarquistas, como disse Victor Serge, é, “pela força das coisas, passar para o marxismo revolucionário.”1

Segundo, seus detratores, a fim de desacreditá-lo mais eficazmente, propõem uma visão absolutamente tendenciosa de sua doutrina. O anarquismo diz-se ser essencialmente individualista, particularista e resistente à qualquer forma de organização. Ele pretende fraturar e atomizar, retraindo-se em unidades locais de administração e produção. Diz-se como incapaz de unidade, centralização e planejamento. É nostálgico dos “anos dourados.” Pretende reavivar formas ultrapassadas de sociedade. Peca por um otimismo infantil; seu “idealismo” falha em considerar a sólida realidade da infraestrutura material.

Por último, certos comentadores estão interessados somente em combater do esquecimento e publicizar apenas seus desvios mais controversos, como assassinatos individuais e propaganda pelo fato.

Ao revisitar a questão, eu não estou simplesmente tentando reparar retrospectivamente uma tripla injustiça ou escrever uma obra de erudição. Parece-me que, de fato, as ideias construtivas do anarquismo continuam vivas; que elas podem, sob a condição de serem reexaminadas e rigorosamente escrutinadas, auxiliar o pensamento socialista contemporâneo a criar um novo começo.

O anarquismo do século XIX é claramente dinstinto do anarquismo do século XX. O anarquismo do século XIX era essencialmente doutrinário. Embora Proudhon tivesse desempenhado um papel mais ou menos central na revolução de 1848 e os discípulos de Bakunin não tenham estado totalmente alheios à Comuna de Paris, estas duas revoluções do século XIX não foram, em sua essência, revoluções libertárias, mas foram antes, até certo ponto, revoluções “jacobinas.” Ao contrário, o século XX foi, para os anarquistas, um século de prática revolucionária. Eles desempenharam um papel ativo nas duas Revoluções Russas e, ainda mais, na Revolução Espanhola.

O estudo da autêntica doutrina anarquista, como se formou no século XIX, mostra que anarquia não é nem desorganização nem atomização, mas a busca pela verdadeira organização, a verdadeira unidade, a verdadeira ordem e a verdadeira centralização, que só podem residir, não na autoridade, coerção ou compulsão exercida de cima para baixo, mas na associação livre, espontânea e federalista de baixo para cima. Quanto ao estudo das revoluções russa e espanhola e o papel desempenhado nelas pelos anarquistas, ele mostra que contrariamente à lenda acreditada por alguns, estas grandes e trágicas experiências mostram que o socialismo libertário estava em grande parte no direito de ir contra esse socialismo que irei chamar de “autoritário.” No mundo todo, o pensamento socialista, no curso dos cinquenta anos que se seguiram à Revolução Russa e dos trinta anos que se seguiram à Revolução Espanhola, permaneceu obcecado por uma caricatura do marxismo, abarrotado de seus dogmas. Em particular, a disputa intestina entre Trotsky e Stálin, que é a mais conhecida do leitor avançado, se contribuiu para arrancar o marxismo-leninismo de um conformismo estéril, não logrou jogar luz suficientemente sobre a Revolução Russa, pois não chegou – não podia chegar – ao coração do problema.

Para Volin, historiador anarquista da Revolução Russa, falar de uma “traição” da revolução, como Trotsky faz, é insuficiente como explicação: “Como foi possível aquela traição na sequência de uma vitória revolucionária tão bela e total? Esta é a verdadeira questão…. O que Trotsky chama de traição foi, na realidade, o efeito inelutável de uma lenta degeneração devido à métodos incorretos…. Foi a degeneração da revolução… que levou à Stálin, e não Stálin que fez com que a revolução degenerasse.” Volin pergunta: “Poderia Trotsky realmente ‘explicar’ o drama uma vez que ele mesmo, junto com Lênin, contribuiu para o desarmamento das massas?”

A declaração do saudoso Isaac Deutscher, segundo a qual a controvérsia Trotsky-Stálin iria “continuar e ecoar pelo resto do século” é discutível.2 O debate que deveria ser reaberto e continuado é talvez menos aquele entre os sucessores de Lênin, que já se encontra ultrapassado, mas antes aquele entre o socialismo autoritário e o socialismo libertário. Nos últimos tempos, o anarquismo saiu da penumbra ao qual foi relegado pelos seus inimigos.

Materiais para um novo exame do anarquismo estão hoje disponíveis àqueles que são apaixonados pela emancipação social e que estão em busca de suas formas mais efetivas. E também, talvez, o material para uma síntese, tão possível quanto necessária, entre as duas igualmente férteis escolas de pensamento: aquela de Marx e Engels e aquela de Proudhon e Bakunin; ideias, é preciso dizer, contemporâneas em seu florescimento e menos distantes uma da outra do que se pode pensar. Errico Malatesta, o grande anarquista italiano, observou que toda a literatura anarquista do século XIX “estava impregnada de marxismo.”3 Em outro sentido, as ideias de Proudhon e Bakunin contribuíram, não em pequena medida, para enriquecer o marxismo.

 

Notas

1 – Prefácio de Serge para Révolution et Contre-Revolution en Espagne, de Joaquin Maurin. Rieder, 1937.

2 – Cf. a biografia de Trotsky de Deutscher, The Prophet Armed, The Prophet Unarmed and The Prophet Outcast (primeiramente publicado em 1954-63).

3 – Malatesta, polêmica de 1897 citada por Luigi Fabbri, Dittotura e Rivoluzione (1921).

 

Tradução ao Português: Alexandre Guerra.

Fonte: Capítulo de “Comunismo Libertário”. Disponível em <https://theanarchistlibrary.org/library/daniel-guerin-the-rehabilitation-of-anarchism>
WordPress Archive WP Guard – WordPress Security, Firewall & Anti-Spam WP IconFinder – Find free icons for WordPress WP Industry – Industrial WordPress Theme WP Job Manager Application Deadline Addon WP Job Manager Applications Addon WP Job Manager Apply With Facebook Addon WP Job Manager Apply With Xing Addon WP Job Manager Bookmarks Addon WP Job Manager Embeddable Job Widget WP Job Manager Job Alerts Addon